Juro Controlado: Crédito Rural e o entrave para os bancos
Apesar dos desembolsos recordes de recursos na safra 2019/20, que alcançaram R$ 191,8 bilhões, os bancos mais uma vez não conseguiram emprestar todo o dinheiro que são obrigados a destinar ao crédito rural com juros controlados. O déficit na aplicação do chamado “direcionamento” chegou a R$ 2,9 bilhões na temporada passada, ante cerca de R$ 620 milhões no ciclo 2018/19, conforme dados do Banco Central.
Doze instituições financeiras, cujos nomes não são revelados, não cumpriram as exigibilidades, principalmente por causa da falta de capilaridade em alguns polos agrícolas e dos custos e burocracias para operar no segmento. Por isso, essas instituições, juntas, tiveram que pagar quase R$ 180 milhões, cobrados pelo BC em agosto.
A deficiência se concentrou na aplicação dos depósitos à vista do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que não contam com equalização. Dos R$ 11,2 bilhões que os bancos deveriam aplicar por essa subexigibilidade, R$ 1,9 bilhão não foram emprestados. Já os recursos de outras fontes com exigibilidades – poupança rural, com subvenção do Tesouro, e Letras de Crédito do Agronegócio, com juros livres -, tiveram desembolsos acima do obrigatório. O cenário é parecido desde 2017, quando o BC passou a cobrar pelo não cumprimento do direcionamento.
Em 2019/20, os bancos tiveram que direcionar 30% dos depósitos à vista (R$ 56,2 bilhões) e 60% da poupança (R$ 106,1 bilhões) ao crédito rural. Os percentuais caíram para 27,5% e 59%, respectivamente, em 1º de julho, mas o índice que precisa ser emprestado para pequenos e médios produtores subiu de 45% para 50%. “Aumentou a dificuldade. Teremos mais sobras de recursos e deficiência para atender o mercado”, diz uma fonte de um banco privado.
Em reunião com o Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) este mês, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, reforçou que a meta do governo é continuar reduzindo o direcionamento. A ideia era cortar para 25% a exigência dos depósitos à vista, mas a pandemia atrapalhou e o ajuste foi adiado para 2021. Em 2017/18, eram 34%. Mas a redução não significa, necessariamente, menos dinheiro a taxas controladas para os produtores. Em meio à pandemia, os depósitos à vista e na poupança rural cresceram. “A base de captação aumentou de 15% a 20%. A redução teria que ser mais drástica. Vai sobrar de novo”, afirma Carlos Aguiar Neto, diretor de Agronegócios do Santander.















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