O avanço da exportação de carne bovina não reduziu a oferta de carne no Brasil, mas deve influenciar diretamente os preços ao consumidor em 2026 diante da menor disponibilidade de animais para abate.

A forte expansão das exportações de carne bovina brasileira nos últimos anos tem alimentado um debate recorrente: afinal, vender mais carne para o exterior prejudica o abastecimento interno e encarece o produto para o consumidor brasileiro?

Um estudo da Scot Consultoria mostra que a resposta não é tão simples quanto parece.

Segundo o analista de mercado Pedro Gonçalves, da Scot Consultoria, os dados históricos indicam que o crescimento das exportações ocorreu acompanhado de um avanço ainda maior da produção nacional, o que permitiu ampliar simultaneamente as vendas externas e a disponibilidade de carne para o mercado doméstico.


Exportação de carne bovina cresceu quase 58 vezes em 29 anos

De acordo com o levantamento, entre 1997 e 2025 a produção brasileira de carne bovina cresceu 232,8%, enquanto as exportações avançaram impressionantes 5.791%. Mesmo diante dessa expansão acelerada das vendas externas, a disponibilidade interna de carne bovina aumentou 105,7% no período.

Para Pedro Gonçalves, isso demonstra que a exportação atuou como um estímulo para o crescimento da cadeia produtiva.

O estudo também mostra que a importação de carne bovina teve pouca relevância na composição da oferta nacional, devido ao volume reduzido quando comparado à produção e às exportações brasileiras.

Ganhos de produtividade mudaram a pecuária brasileira

Um dos principais fatores que explicam esse crescimento simultâneo da produção e das exportações está no avanço tecnológico da pecuária nacional. Segundo a Scot Consultoria, a atividade atingiu patamares de eficiência que eram impensáveis há algumas décadas.

Atualmente, em um período de 10 anos, podem ser abatidos até três bovinos com o mesmo peso que anteriormente gerava apenas um animal terminado. Em sistemas mais intensivos, esse número pode chegar a cinco animais.

Esse ganho de produtividade permitiu ao Brasil ampliar sua posição como maior exportador mundial de carne bovina sem comprometer o abastecimento interno.


Quando a exportação passa a ser vista como “vilã”

Apesar dos benefícios observados ao longo das últimas décadas, a Scot alerta que existem momentos em que a exportação pode gerar pressão sobre os preços domésticos.

Isso ocorre principalmente em ciclos de menor oferta de animais para abate, situação que tende a acontecer quando os pecuaristas entram em fase de retenção de matrizes para reconstrução do rebanho. Nesses períodos, a produção cresce em ritmo mais lento e o mercado externo passa a disputar a mesma matéria-prima disponível para abastecer o mercado interno.

Segundo a análise, essa concorrência influencia diretamente os preços, uma vez que frigoríficos exportadores precisam competir pela compra do gado disponível.


Impacto chega primeiro à arroba e depois ao consumidor

Outro aspecto destacado pela Scot Consultoria é a relação entre a demanda internacional e o preço da arroba do boi gordo. De acordo com o estudo, quando as exportações estão aquecidas, os preços da arroba tendem a permanecer sustentados mesmo em momentos de consumo doméstico mais fraco. Por outro lado, o repasse desse aumento para os supermercados nem sempre ocorre na mesma velocidade.


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